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Anne Hathaway vive um novo ponto de inflexão em sua trajetória artística. Conhecida por transitar com facilidade entre o cinema comercial e produções mais autorais, a atriz agora se lança em um território ainda mais instável e provocador com Mother Mary, thriller psicológico que a coloca no centro de uma narrativa sobre fama, criação artística e autodestruição. Longe do glamour clássico que marcou parte de sua carreira, Hathaway surge como uma figura pop perturbada, caótica e emocionalmente exposta.
No filme, a atriz interpreta Mary, uma estrela da música mundial que decide abandonar uma turnê no auge do sucesso após uma crise existencial. A decisão não representa apenas um colapso profissional, mas o início de uma jornada íntima para confrontar quem ela é além da imagem cuidadosamente construída pela indústria. Esse conflito se intensifica quando Mary procura Sam, antiga amiga e estilista responsável por moldar sua persona pública, um reencontro carregado de ressentimentos, dependência emocional e disputas silenciosas por controle e identidade.
Assumindo o papel com entrega física e emocional evidente. O trailer divulgado em dezembro revela uma performance marcada por contrastes: ora majestosa e performática, ora vulnerável e à beira do colapso. Olhares vazios, gestos abruptos e cenas que flertam com o ritualístico sugerem uma personagem aprisionada entre o mito que criou e a mulher que tenta sobreviver por trás dele. É uma atuação que abandona qualquer zona de conforto e aposta no desconforto como linguagem.
A escolha do projeto reforça o momento atual da carreira de Hathaway, cada vez mais interessada em personagens femininas complexas, contraditórias e pouco conciliadoras. Mother Mary não parece interessado em humanizar sua protagonista de forma didática, mas em expor suas falhas, obsessões e impulsos destrutivos. A atriz, por sua vez, sustenta essa ambiguidade com maturidade, assumindo o risco de não agradar a todos, algo que se tornou marca de suas escolhas mais recentes.
O filme também utiliza a música como extensão emocional da personagem. As performances musicais não funcionam apenas como espetáculo, mas como manifestações internas do estado psicológico de Mary. Nesse aspecto, Hathaway se afasta da ideia tradicional de “atriz interpretando uma cantora” e se aproxima de uma construção híbrida, em que corpo, voz e imagem pública se confundem, reforçando o discurso sobre identidade fragmentada.
Visualmente, Mother Mary aposta em uma estética simbólica e opressiva, que amplifica a sensação de isolamento da protagonista. Luzes artificiais, figurinos quase cerimoniais e espaços fechados criam um clima de constante tensão, refletindo o aprisionamento emocional da personagem. Tudo converge para transformar Mary não apenas em uma estrela pop, mas em um ícone instável, quase mítico, à beira do esgotamento.
Com estreia prevista para 2026, o longa se posiciona como uma das apostas mais ousadas da carreira de Anne Hathaway. Mais do que protagonizar um thriller psicológico, a atriz parece interessada em discutir o preço da visibilidade, a violência simbólica da fama e a fragilidade da identidade quando ela se transforma em produto. Mother Mary surge, assim, como um retrato sombrio do estrelato, e como mais uma prova de que Hathaway segue disposta a se reinventar, mesmo que isso signifique atravessar territórios desconfortáveis e perturbadores.
